mulher lidando com positividade tóxica

A armadilha da gratiluz

Você já deve ter entrado em contato com algum conteúdo que promete que basta você pensar positivo, agradecer bastante e se afastar de tudo que é pesado pra vida te devolver só coisa boa, luz e paz. Enfim, a tal da positividade tóxica.

E eu entendo o apelo que isso traz e porque viraliza, afinal, quem não quer um caminho onde é só escolher a luz e pronto?

Mas eu não acredito que funciona assim, e sinto te dizer que essa promessa cobra um preço que quase ninguém conta.

Não me leve a mal, eu sou terapeuta de Reiki e Barras de Access, acredito muito no poder da energia e do pensamento, mas tenho uma formação como psicóloga que me ajuda a enxergar que tudo tem que ter equilíbrio, e é disso que quero conversar contigo hoje.

A positividade tóxica cobra caro

Repara no que essa ideia gratiluz faz com você.

Você já vive tentando dar conta de todo mundo, já se cobra por não ser suficiente em tudo, e agora ainda precisa estar grata, positiva e vibrando alto o tempo inteiro. Daí isso virou mais uma coisa pra performar, né?

O pior é que quando você não consegue (porque ninguém consegue), você não pensa que a promessa era falsa, você pensa que o problema é você que é muito negativa e ou tem mentalidade escassa. É a mesma armadilha da mocinha que a gente falou nas últimas semanas, só com outra roupa: mais uma forma de você achar que precisa aparecer de um jeito específico pra merecer o que quer.

Meu ponto é: precisamos sentir o que é ruim também, não dá para se apegar apenas em sentimentos bons, isso te desequilibra e faz você se perder de si.

Os sentimentos são o caminho, não o obstáculo

Entenda que os sentimentos não são obstáculo no caminho, eles são o caminho.

Todos eles, inclusive os que você não gosta de ter. A raiva, a tristeza, o medo, a inveja, o cansaço, tudo isso é bússola, é informação sobre onde você está pisando e sobre o que está pedindo cuidado. Quando você não se demora neles, você nem consegue nomear direito o que sente, e o que não é nomeado não pode ser cuidado.

O que você não sente, o corpo guarda

E aqui vai a parte que ninguém te conta: o que você não sente não desaparece, muda de lugar. Vai pro ombro que vive travado, pro sono que não descansa, pra irritação que explode com quem não tem nada a ver, pra doença que aparece do nada num mês em que você jurava que estava tudo bem.

O corpo guarda o que a boca não fala e o que o peito não permite sentir.

Talvez você já tenha ouvido isso, pois é, seu corpo sempre cobra, e ele cobra em outra moeda.

Para facilitar eu gosto de pensar nas emoções como uma pilha de louça. Ignorar a existência dela não vai fazer ela se lavar sozinha, né? Mas também não é pra você passar a tarde inteira lavando o mesmo prato vinte vezes, remoendo, se afundando, morando na dor. É entender que precisa ser feito, lavar com o cuidado necessário, e depois correr pro abraço e aproveitar o dia com a cozinha limpa.

A diferença entre o veneno e o antídoto está na dose

Isso também não significa que você precisa viver sofrendo ou que gratidão é balela.

A gratidão é linda e muda de verdade o jeito como você enxerga a sua vida. Só que ela vem depois do sentir, como consequência de ter atravessado a situação, nunca como atalho pra pular por cima. Você não vai conseguir ser grata no meio do que está machucando, e tudo bem, ninguém alcançou nível máximo de evolução nenhuma.

Primeiro você sente, acolhe, entende de onde vem, deixa passar por você (não por cima de você, ok?). Aí, no seu tempo, a gratidão chega, de forma genuína, não é uma frase que você repete pra convencer a si mesma.

O que eu quero que você leve daqui é isso: cuidar de si não é escolher só a parte bonita. É se dispor a olhar o que está aí dentro, inclusive o que assusta, inclusive o que você vem empurrando pra debaixo do tapete há anos porque não teve tempo, não teve espaço, ou porque ninguém nunca te disse que podia. Rir é bom, mas rir de tudo, como já dizia o Frejat, é desespero.

Você não precisa estar bem o tempo todo, precisa estar inteira, e inteira inclui o que dói. Vou aprofundar mais no tema gratidão em outros textos, mas por ora entenda que a gratidão vai sendo exercitada a partir daí, sempre tendo equilíbrio.

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Debora Barros

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Acabou, por enquanto!

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