Esse é o meu relato de parto, e demorei para escrever porque algumas experiências precisam assentar antes de virar palavras. Eu precisei digerir, processar, entender o que tinha acontecido comigo antes de conseguir falar sobre isso.
Mas desde o dia um sabia que esse relato seria importante, pois sei que pode ajudar alguém e alertar mulheres que, assim como eu, querem um parto respeitoso e mesmo se preparando muito, mesmo fazendo toda a cartilha ainda podem se deparar com violência obstétrica.
Já quero começar nosso papo pontuando que faz toda a diferença ter uma equipe de confiança ao seu lado. Algumas pessoas acham que obstetriz/enfermeira obstétrica e Doula são luxos, mas não são. Você precisa mais delas do que uma roupinha Carters no seu enxoval, vai por mim!
Digo isso já dando um spoiler, eu tive o Leo São Luiz Star, um dos hospitais mais renomados do país, e isso não foi garantia de nada. O que me salvou de uma cesárea totalmente desnecessária foi ter as pessoas certas ao meu redor.
Essas lindezas vão ser citadas ao longo da história, mas já quero apresentar elas aqui para facilitar:
Nicole Varea — Doula @nicoledoula
Raphaela Romão — Obstetriz @raphaelaobstetriz
Dra. Mariana Montemor — Obstetra @dramarianamontemor
O pequeno estouro de bolsa e o início do processo
Dito isso, pega uma pipoca e se prepara pro textão, vai valer a pena!
A bolsa rompeu numa quarta-feira e não foi aquele momento dramático de filme, com água escorrendo pelo corredor. Foi um ploft. Um negocinho. Eu olhei e pensei: que coisa estranha.
Fui para minha consulta de fisioterapia pélvica e lá ela falou que parecia que tinha saído alguma coisa, provavelmente o tampão, e que eu podia começar a perceber movimentos. Avisei a Nicole (doula) e a Raphaela (obstetriz) e elas pediram para eu agachar e tossir pra ver se saía líquido.
Saiu.
Mesmo assim fiquei em negação um tempinho — deve ser xixi — até que fiz xixi de verdade e o líquido continuou saindo. Tudo bem, bolsa rompida, vamos lá.
A equipe explicou que a gente tinha até 18 horas antes de precisar ir pro hospital. Se o trabalho de parto começasse antes, ótimo. Se não, a gente ia mesmo assim, porque com a bolsa rompida o bebê fica sem proteção e eu precisaria começar antibiótico. O Mauro foi ficar comigo em casa, passou o dia e nada aconteceu. Zero. Nenhum sinal de parto.
A noite veio uma enfermeira tentar passar um balão pra induzir o trabalho de parto mas não deu certo, então ás 5 da manhã da quinta-feira fomos pro hospital.
Início da Indução
Eu escolhi parir no São Luiz Star, pois tive diversas recomendações de ser um hospital pró parto natural, sem profissionais que te empurrassem para uma cesárea desnecessária, então estava bem tranquila com isso.
No hospital, começamos a indução. A equipe falou que provavelmente eu só ia ter alguma evolução de madrugada, então passamos o dia lá, esperando. Eu não sentia praticamente nada.
À noite, começaram as contrações. E aqui vai uma coisa que eu preciso registrar porque ainda me surpreende: eu estava dando conta. Respirava, fazia os exercícios de respiração que tinha praticado (inclusive indico demais para vocês que estão gestantes conhecerem o hypnobirthing), a contração vinha, doía e passava. As meninas olhavam o monitor e ficavam impressionadas “você tá muito boa pra dor, porque tá alta essa contração.”
Eu pensei: “se for assim o parto inteiro, tô de boa.”
Por volta das 23h uma das enfermeiras tinha feito o último toque e ficou de olho arregalado: o bebê estava em menos um na escala de descida — numa escala que vai de menos cinco a mais cinco, ou seja, ele já estava muito baixo, mas ainda com zero de dilatação.
Quando deu 01h a obstetriz fez o exame de toque e orientou: “vamos dormir, porque na madrugada você entra em trabalho de parto”. Eu tava na adrenalina, mas topei. Deitei, fechei o olho.
Cinco minutos depois, senti algo encaixar. No meu sono leve achei que estava sonhando. Mais cinco minutos, encaixou de novo e começou a doer muito. Fui ao banheiro, tinha sangue. Chamei o Mauro, ele chamou a Rafa.
Aí virou outra história.
Início do trabalho de parto
As contrações vieram fortíssimas. Eu chorava em cada uma e ficava bem entre elas. Falei pras meninas: “não tô aguentando, tô sentindo vontade de empurrar”. Quando elas chegaram eu já estava de quatro na cama.
A coisa tava tão acelerada que todos pensaram que não daria tempo de chegar até a sala de parto. Descemos correndo e quando chegamos lá, a médica fez o toque e viu: dois centímetros de dilatação.
Eu, o Léo e todo o meu corpo querendo expulsar esse bebê, mas só dois centímetros de dilatação. Então ele estava empurrando pra sair, meu corpo também e nada acontecia, pensa num desespero que me deu!
Foi aí que começou uma dor que não era de contração. Ela era no baixo ventre, de dentro pra fora, como se fosse explodir, daí pedi para ir pra banheira, mas a dor continuou. Comecei a ficar mole, exausta, sem conseguir processar mais nada, então olhei para as meninas e pedi analgesia, eu não aguentava mais e não queria mais sentir aquela dor na vida.
Eu real estava com medo, nunca senti um medo como aquele, não aguentava aquelas ondas de dor. Antes do meu parto eu tinha o desejo de fazer tudo sem anestesia, me preparei para aquilo, mas aquilo foi totalmente fora do que eu esperava.
Chamamos o anestesista. Ele chegou, preciso e cuidadoso — tadinho, fazia tudo rápido e ainda me explicava cada passo. Mas eu estava o cão e só queria que a dor não viesse mais, então pensa no quanto eu tava antisocial naquele momento. Inclusive depois do nascimento do Leo até me desculpei com ele!
Para fazer a anestesia e eu precisava ficar imovel, com a coluna reta, o que me parecia impossível quando essa onda de dor vinha, o Mauro estava na minha frente me segurando. Para dar conta teve uma hora que dei um murro nele, tadinho, mas ele entendeu.
Tomei a analgesia e a ideia era descansar para retomar depois. Mas eu não consegui descansar de verdade, minha cabeça ficou a milhão e entre cochilos acordava com medo de sentir aquela dor de novo. Eu nunca fui medrosa, simplesmente não me reconhecia naquele momento.
Quando acordei, conversei com minha equipe e elas me apioaram em seguir com a anestesia, para dar conta do parto. Naquele momento me acalmei e vi que poderia dar conta com o apoio delas.
Enquanto esperavamos o repique da anestesia a Rapha fez uma avaliação e descobriu duas coisas: a dor que eu sentia não eram contrações, mas sim a minha Bartolinite. A glândula estava inflamada e causando uma dor insuportável, o Léo estava um pouco deslocado pra esquerda (o corpo sendo inteligente, tentando proteger uma glândula de Bartholin inflamada).
Com aquela constatação ficou mais claro ainda que eu precisava de anestesia para dar conta da passagem do Léo. Tudo parecia tranquilizar, mas foi aí que começou o que eu só consigo chamar de violência obstétrica.
O início da violência obstétrica
Ás 07h a médica do novo plantão entrou na sala. Se apresentou, me examinou e logo foi direto ao ponto: “seu cardiotoco está baixo, isso é indicação de sofrimento fetal e você precisa ir para a cesária.”
Até aí, talvez eu tivesse aceitado como uma avaliação realista, mas então ela completou: “e o bebê ainda está em menos três.”
Eu olhei pra ela e falei que a noite ele estava em menos um. Como poderia ter ido pra menos três?
Ela claramente não gostou de eu não aceitar de primeira o que ela falaou, gaguejou e argumentou que cada profissional que faz o exame pode ter um resultado diferente.
Eu perguntei se poderia falar com minha equipe sobre isso e ela respondeu: “Você pode falar com quem você quiser, mas o protocolo é meu e sou eu que tomo essa decisão”
Naquele momento o chão se abriu para mim, eu sabia que ela não estava sendo verdadeira com relação a minha situação e que estava determinada a me colocar numa cesárea desnecessária.
Assim que ela saiu da sala a Rapha falou: “vocês querem comprar essa briga? Porque se você quiser, eu tô com vocês.” – Sério, ela foi grandona aqui!
Eu estava exausta, sem comer desde as as 21h, é claro que o cardiotoco estava ruim. Eu e o Mauro questionamos quais caminhos tinhamos, se podiamos pedir uma segunda opinião. As meninas foram diretas: dava pra pedir segunda opinião dentro do hospital, mas a colega não ia passar por cima do que a médica já tinha dito. A outra opção era tentar achar uma médica de fora, alguém de confiança.
Fiquei muito mal nessa hora. Não de dor , mas de uma coisa mais funda. Eu tinha feito tudo, contratado uma equipe, me preparado, pesquisado, me cercado de pessoas que acreditavam no meu plano. E ainda assim eu estava ali, sendo empurrada pra uma cirurgia que eu não precisava, por uma pessoa que se importava mais com o horário do plantão do que com o que estava acontecendo comigo.
Fiquei destruída. Eu estava derrotada e nem me reconhecia, conversei com o Mauro e pedi para ele tomar as decisões por nós porque eu não tinha condições mais.
O Mauro falou: “se vai te deixar mais segura, vamos chamar outra médica. Mas vamos pedir também a opinião da outra plantonista.”
E foi isso que aconteceu, a médica retornou para a sala de parto um pouco mais simpática, começou a explicar de outro jeito. Mas aí eu já não queria mais nem olhar pra ela, não confiava nela e não queria que ela me operasse.
A Nic e a Rapha tentaram explicar que o cardiotoco baixo podia estar relacionado com o fato de eu não ter comido nada fazia algumas horas. A médica respondeu que não existe isso, que cardiotoco não fica baixo porque a paciente não comeu (Juro que ela meteu esse louco!).
Depois, a outra plantonista confirmou a necessidade de cesárea sem nem me examinar. Enquanto isso as meninas começaram uma movimentação que eu nunca vou esquecer para encontrar uma obstetra que pudesse fazer a avaliação e parto, às 7h da manhã de uma sexta feira em São Paulo, o auge do pico de trânsito.
Informamos para a médica do hospital que estavamos chamando uma medica externa, e parece que isso a deixou mais irritada, porque ela passou a ser extremamente rude e agressiva com a minha equipe. Pedia CRM e contato da medica que estava vindo, dizendo que ela ia ligar para falar com a profissional. depois voltou pra sala e declarou que tinha acabado de falar com ela, e que ela não conseguia vir.
A Rafa disse que tinha acabado de ligar também, e que a médica tinha dito que mandaria a backup dela.
A do plantão respondeu que era impossivel em um minuto tudo ter mudado e que queria os dados da outra medica, como se estivessemos mentindo.
E assim foi, qualquer coisa que saísse da boca da minha equipe era tratada com agressividade. Elas tentavam explicar, argumentar, defender e eram respondidas com descaso, com rispidez, com aquele tom de quem acha que tem o poder e quer que todo mundo saiba.
Isso tudo acontecia na minha frente, dentro da sala de parto. Com eu ali, anestesiada, sem ter comido, destruída e assistindo à minha equipe ser tratada como criminosas.
Em algum momento a médica virou para a Rapha e disse: “eu não vou discutir isso na frente da paciente.” E continuou discutindo na minha frente. Se eu tivesse com energia, ia olhar e falar: “linda, você ainda tá discutindo na frente da paciente, então não tá adiantando nada.” Mas eu não tinha mais nada. Eu estava no limite.
Foi ai que conseguiram falar com a Mari, que conseguia chegar no hospital em uma hora e informou isso para a médica do plantão. Que reagiu dizendo que não tinha como esperar uma hora.
Porém, como eu já estava começando a comer, o cardiotoco estava bom e a medica do plantão não tinha muito como justificar me levar para a cirurgia, entao ela deu o ultimato para a Mari por telefone “Se você não chegar em uma hora, eu não te espero e levo ela para a sala cirurgica!”
Aqui vale um parenteses importante, eu estava bastante enjoada e por isso não conseguia comer (sintoma da dilatacao que ja estava em 7cm), entao a Mari perguntou para a medica do plantao se tinham dado soro pra mim pra ver se o cardiotoco melhorava. Ela respondeu que sim e que não melhorou. Só que nunca me deram soro e quando o mauro pediu, elas negaram.
Aparentemente elas queriam liberar o plantão e era isso.
Naquele ponto eu estava tão exausta que so queria que tudo acabasse, queria ir para a cirurgia logo e fim, daí falei pras meninas: “A não ser que a Mari chegue e me fale que se eu espirrar o bebê sai, eu não quero tentar mais. Eu vou pra cirurgia. Não tô aguentando.”
E daí a mari chegou…
A virada de tudo
Juro que parece exagero, mas parece que o sol entrou junto com ela.
Eram dez e pouco da manhã, ela nos cumprimentou e perguntou o que tinha acontecido, ouviu tudo. Me pediu pra avaliar. Fez o toque com uma calma que eu não tinha visto em horas. Olhou pra mim e falou: você está com 8 centímetros.
Ela perguntou se eu queria tentar empurrar. Eu empurrei. Ela sorriu: agora você está com 9. Se a gente botar ocitocina, até 11h30 esse menino nasce..
E aí algo em mim voltou. Eu não tinha comido, não tinha dormido, tinha passado por tudo aquilo, mas com a presença dela eu voltei. Virei fera. Falei: bora.
A gente colocou música, começamos a dar risada, tudo começou a fluir e aquele clima pesado que tinha se instalado com a médica de plantão passou.
O expulsivo foi intenso, senti toda a dor do expulsivo. Numa hora coloquei a mão pra sentir a cabecinha, como as meninas sugeriram, e em vez de me dar energia só gritei: ainda tá muito lá dentro, alguém tira esse menino de mim. Gritava pra fazer força, mas tinha refluxo, então na metade do grito a força cortava no meio. Era quase cômico.
Naquele momento eu só pensava “Que ideia de girico fazer parto natural, SEM OR me tira daqui”
A Nicole me abanava com um leque que foi meu salvador, lembro até hoje a sensação boa que aquele vento me dava. Isso sem contar a força que todos estavam me dando, inclusive as enfermeiras do hospital, que durante esse rolo todo ficaram do meu lado, entendendo como a postura da médica de plantão era inadequada.
E então, às 11h52 o Leo nasceu.
Colocaram ele no meu colo. Todo mundo falava pra eu olhar pra ele, mas eu não conseguia porque ainda sentia dor (um oferecimento Glandula de Bartolini). Quando a placenta saiu a dor parou e eu consegui olhar, colocamos a música de ninar que uma amiga fez para ele, cantamos e ficamos contemplando nosso filho.
E aí ficou tudo mais bonito.
Depois de tudo, registrei uma reclamação no São Luiz Star. Eles me responderam, lamentaram o ocorrido e informaram que iriam orientar as profissionais envolvidas. Não sei o quanto isso muda na prática, mas registro importa, pra mim, e pra próxima.
Tenho muito a agradecer as pessoas que estiveram comigo

Primeiro ao Mauro, meu marido, que foi sensacional em cada etapa, gestação, parto e pós. Ele estava lá quando eu pedi pra ele tomar as decisões por mim porque eu não tinha mais condições. Ele segurou tudo com firmeza e isso fez muita diferença.
E à Nicole, à Raphaela e à Mari: vocês me salvaram de um trauma e sabem que não é força de expressão. Sem vocês, essa história teria outro fim e eu estaria carregando isso de um jeito muito diferente, vocês marcaram minha vida para sempre.
Se você chegou até aqui, obrigada por ler, espero de coração que o seu parto seja bonito, respeitoso e cercado de pessoas que acreditam em você.
E se você passou por algo parecido, ou se tem dúvidas, conta aqui nos comentários, esse espaço é nosso.



Respostas de 2
Que relato forte, Dé!! Parabéns pela garra!!
Muito obrigada Deh <3